Eu sei, o título soa duro e meio complicado de ler. Quase como admitir que o Kanye West estava certíssimo quando interrompeu o discurso da Taylor para defender a Beyoncé (não me cancelem, é só um recurso narrativo). Mas, depois de certa idade, a gente entende que nem todo sorriso vem com boas intenções embutidas. E que nem todo mundo é o que parece ser, até mesmo no universo feminino.
Era o fim de um dia exaustivo. Escritório uma loucura, altas demandas para finalizar até o final da semana (ainda era quarta feira), meu óleo de cabelo estava no fim e não estávamos nem perto do dia 30. Então fizemos o que mulheres adultas fazem para sobreviver emocionalmente na vida adulta: sentamos num barzinho qualquer, em frente ao trabalho, eu e mais umas cinco amigas.
O obvio: falamos do nosso ultimo shampoo que deu certo, nossa rotina de skincare, como não aguentamos mais ouvir a voz de um certo querido e, claro, falamos mal de homens, muito mal (porque algumas tradições merecem ser preservadas).
Até que, no meio de uma conversa aparentemente inofensiva sobre sutiãs (essas pequenas estruturas arquitetônicas criadas para nos lembrar que conforto nunca foi prioridade) alguém soltou, com uma naturalidade desconcertante, que uma colega de trabalho não usava sutiã, nas falas dela: "ISSO ERA RIDÍCULO. Passava dos limites corporativos". Porque, segundo ela, seria simplesmente inevitável que um homem não olhasse.
um minuto de silêncio (eu aqui e você ai).
Naquele momento, senti algo entre vergonha alheia e um silêncio interno incômodo.
Vergonha por ela. Vergonha por mim.
Principalmente porque eu… nunca uso sutiã (to sempre usando uma blusinha que me promete exatamente isso, você sabe qual eu to falando hihihi).
Mas enfim, esse episódio não saia da minha cabeça, eu nao conseguia parar de pensar naquilo, o quanto eu achava ridícula a frase dela, mas não só a frase, como ela poderia atrelar a liberdade de uma mulher a um desejo masculino ridículo e achar isso normal?
Então veio a pergunta que ficou ecoando por dias: quando foi que o bico do peito de uma mulher virou um problema moral? E mais, quando foi que virou um problema para outra mulher? ou ainda pior, quando foi que tivemos que deixar de fazer coisas porque simplesmente um homem não consegue controlar seus desejos? Por que o peito de uma mulher se destaca mais do que o trabalho dela? Por que sempre é sobre o corpo de uma mulher e nunca sobre a atitude do homem?
São muitos porquês. E isso me levou a mais uma aventura acadêmica...
Entrando um pouco na historia, a gente nota que o problema nunca foi o sutia em si, tanto que há relatos que o costume de cobrir os seios tenha se originado na grécia antiga, dizem que mulheres amarravam os seios quando participavam de eventos esportivos para parecerem mais masculinas.
Pois é, na verdade o sutia pode ter sido inventado como uma forma de fugir dos olhares masculinos, ou pior, uma tentativa de esconder a nossa própria feminilidade para ser levada a sério? O sutiã surge, então, não apenas como uma peça de roupa, mas como um acordo silencioso: você pode existir, desde que não demais. Desde que se contenha. Desde que não lembre ao mundo que tem corpo.
Na minha não tão humilde opinião, me choca vivenciar mulheres repetindo padroes e falas tão antigas e patriarcais sobre as outras. Simone de Beauvoir, no livro O Segundo Sexo, diz que as mulheres não nasceram rivais, foram formadas assim.
Ela explica que, por séculos, as mulheres não constituíam um “grupo” com consciência própria, porque estavam isoladas umas das outras dentro da estrutura familiar e dependentes da validação masculina.
“As mulheres vivem dispersas entre os homens; ligadas a pais ou maridos mais do que a outras mulheres.”
Ou seja: culturalmente, fomos ensinadas a existir a partir dos desejos masculinos. A sermos delicadas, agradáveis, dedicadas à vida familiar. E talvez esse seja o grande ponto.
Ao longo da história, mulheres cresceram em um mundo moldado por gostos masculinos e aprenderam (muitas vezes sem perceber) que haveria pouco espaço para todas. E que, se uma mulher ocupasse esse espaço, inevitavelmente sobraria menos para outra.
Mas, não dá para ignorar que algumas coisas mudaram com o tempo. Adeptas ou não, a favor ou contra, é difícil negar: o movimento feminista mudou a história.
E, se você gosta de história tanto quanto eu, sabe que o pensamento feminista surge junto com o Iluminismo, quando começam a ganhar força ideias de igualdade e direitos individuais. Mary Wollstonecraft (uma verdadeira diva intelectual da época) escreveu que “as mulheres não são inferiores por natureza, mas porque não têm acesso à educação”. E isso mudou tudo.
O feminismo virou a chave. Fez a mulher se perguntar qual papel ela realmente gostaria de ocupar na sociedade. Mudamos o jogo. Começamos a falar sobre colaboração, negócios, empreendedorismo. Passamos a enxergar que não precisávamos dedicar a vida apenas à construção de uma família, mas que também poderíamos desejar, escolher e viver nossas carreiras.
Então foi aí que as mulheres passaram a se apoiar, criar redes e celebrar conquistas umas das outras. O feminismo, com todas as suas ondas e evoluções, nos ensinou uma palavra poderosa: a famosa sororidade.
Não como obrigação de gostar de todas. Mas como uma decisão consciente de não reproduzir violências e padrões que nunca foram nossos para carregar.
E eu lembro exatamente quando a Manu Gavassi falou essa palavra no BBB20 e virou o maior rebuliço “buscas por 'sororidade' no Google sobem 250% após fala de Manu Gavassi”
Sororidade saiu dos livros, das rodas feministas e caiu, de repente, no horário nobre. Teve quem revirasse os olhos, quem achasse exagero, quem dissesse que era “mimimi”. E eu fiquei pensando: será que a palavra incomodou tanto porque era nova… ou porque finalmente colocou nome em algo que sempre existiu? (ou deveria existir).
Mas enfim, o que eu quero dizer é que, com o passar do tempo, e muito por conta do movimento feminista, os estereótipos impostos sobre as mulheres começaram a quebrar. Aquela velha ideia de que mulheres precisam competir por atenção, por espaço ou por validação masculina começou a parecer cansativa (e como é cansativo ainda ver mulheres vivendo dessa forma).
E, sinceramente, a ideia de competição é pequena demais para o tamanho que a gente descobriu que pode ter.
Mas, é claro, sejamos honestas: a rivalidade não desapareceu. Ela ainda nasce da insegurança, da comparação, do medo de não ser suficiente e daquele pensamento antigo que nos ensinaram a repetir: não tem espaço para todas nós.
Não é um problema você usar sutia, O PROBLEMA NÃO É O SUTIA se isso te faz bem, vai em frente amiga. O problema é você diminuir outra mulher por ter uma escolha diferente da sua. São atitudes como estas que agora conseguimos parar e perguntar: isso é meu mesmo, ou me ensinaram assim?
Talvez a verdadeira maturidade feminina não esteja em confiar cegamente em todas. Nem em esperar que todas pensem igual. Mas em entender que nem toda mulher vive no mesmo tempo e que muitas ainda estão presas a um passado que a gente já começou a questionar (e se você esta lendo esse texto até aqui, é porque não faz parte da parcela de mulheres que ainda se sentem rivais uma das outras).
Porque quando a liberdade de uma mulher incomoda mais outra mulher do que o desejo masculino ridículo jamais incomodou…alguma coisa precisa ser revista.
E no fim das contas, será que o verdadeiro sinal de maturidade não é perceber que o problema nunca foi o bico do peito…mas quem ainda insiste em olhar para outra mulher como ameaça, e não como uma amiga?
um beijo de sua best.anônima, nos vemos logo XOXO

